O amor nem sempre procura amor.
- Andreia Terapeuta
- 21 de jun.
- 2 min de leitura
Um dos conceitos mais desconfortáveis — e libertadores — da psicanálise é compreender que nem sempre procuramos amor quando nos apaixonamos. Muitas vezes, procuramos algo muito mais antigo: aquilo que nos é familiar.
Gostamos de acreditar que nossas escolhas afetivas são totalmente conscientes. Que escolhemos quem nos faz bem, quem nos valoriza e quem nos oferece aquilo que desejamos viver. No entanto, o inconsciente opera em outra linguagem. Ele não trabalha com lógica, mérito ou felicidade. Ele trabalha com memória emocional.
É por isso que, muitas vezes, nos vemos atraídos por pessoas que despertam sentimentos conhecidos, mesmo que dolorosos. Não porque desejamos sofrer, mas porque existe uma parte profunda de nós que reconhece aquele território emocional. O abandono familiar, a necessidade de aprovação, a espera interminável por afeto, a sensação de não ser escolhido ou de precisar conquistar amor podem se tornar roteiros inconscientes que repetimos ao longo da vida.
Freud observou esse fenômeno e o chamou de compulsão à repetição. Sem perceber, voltamos a cenários semelhantes, não porque eles nos façam felizes, mas porque o psiquismo tenta, repetidamente, encontrar um final diferente para uma história antiga.
É como se uma criança ferida continuasse acreditando que, desta vez, será amada da maneira que sempre precisou. E então escolhemos pessoas indisponíveis, relações desequilibradas ou vínculos que exigem luta constante, porque, em algum lugar dentro de nós, amor e esforço excessivo acabaram se confundindo.
O problema é que nenhuma relação atual cons
egue curar uma ferida quando continuamos repetindo o mesmo papel dentro dela. A cura começa quando deixamos de perguntar apenas "por que isso aconteceu comigo?" e passamos a perguntar "o que existe nessa história que me parece tão familiar?".
O autoconhecimento nos mostra que amadurecer emocionalmente não é apenas encontrar alguém diferente. É também nos tornarmos diferentes diante dos mesmos padrões.
Talvez o amor verdadeiro não seja aquele que reproduz nossas dores mais antigas, mas aquele que nos convida a construir uma experiência emocional nova. Uma experiência em que não precisamos implorar por presença, disputar atenção ou provar nosso valor para sermos amados.
Porque, muitas vezes, aquilo que chamamos de destino é apenas uma história antiga pedindo para ser compreendida.
🖤 Reflexão: Você está realmente procurando amor ou ainda está tentando reescrever uma história que começou muito antes da pessoa que está à sua frente?
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