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Olhos de Dragões

21 de ago.
7 min de leitura

Existem experiências que começam quase despretensiosamente e, quando percebemos, já nos conduziram para territórios internos que não imaginávamos explorar. Foi assim que me vi, pela primeira vez, diante de um pedaço de biscuit, tentando construir algo que jamais havia feito antes: o olho de um dragão.

Mas não de qualquer dragão.

O projeto nasceu da Narinha e de sua relação com aquilo que ela compreende como seu dragão de essência. Dentro da percepção mística dela, esse dragão não é simplesmente uma criatura imaginária, tampouco um personagem criado para uma história. Existe uma relação espiritual, simbólica e ritualística com essa presença. E foi justamente aí que nossos universos, embora diferentes em suas interpretações, acabaram se encontrando.

Narinha parte de uma compreensão predominantemente mística. Eu consigo olhar para a mesma experiência também através daquilo que faz parte da minha formação e da maneira como observo o comportamento humano: a Psicanálise e, especialmente neste contexto, a perspectiva junguiana dos símbolos e arquétipos.

E talvez seja justamente essa diferença de olhares que torne o projeto tão interessante para mim.


O dragão entre o mito e a psique

Dragões atravessam culturas, séculos e civilizações. Mudam de aparência, temperamento e significado, mas permanecem estranhamente vivos no imaginário humano.

Em algumas tradições, guardam tesouros. Em outras, representam sabedoria, poder, destruição, proteção, caos, conhecimento ou forças da natureza. Existem dragões associados à terra, à água, ao fogo e aos céus. Existem aqueles que precisam ser enfrentados pelo herói e aqueles que se tornam seus aliados.

Sob uma perspectiva junguiana, isso é fascinante.

Carl Gustav Jung compreendeu que determinados símbolos ultrapassam a experiência exclusivamente individual e aparecem repetidamente nos mitos, sonhos, religiões e narrativas humanas. São imagens capazes de constelar conteúdos profundos da psique.

Nesse sentido, não preciso decidir se um dragão “existe” ou “não existe” objetivamente para reconhecer a potência psíquica dessa experiência.

Essa talvez seja uma das coisas que mais me interessam nesse projeto.

A pergunta psicanalítica não precisa ser:

“O dragão é real?”

Ela pode ser:

“O que esse dragão representa para aquele que se relaciona com ele?”

E são perguntas completamente diferentes.

Quando alguém identifica uma criatura simbólica como seu “dragão de essência”, podemos pensar, pela lente junguiana, em uma imagem que concentra aspectos importantes de sua própria organização psíquica: força, agressividade, proteção, ancestralidade, medo, independência, sabedoria, instinto, capacidade de combate, poder ou mesmo conteúdos que ainda não foram plenamente integrados à consciência.

O dragão pode representar aquilo que protegemos.

Mas também aquilo que nos protege.

Pode guardar nossos tesouros internos, mas também nossos medos.

Pode representar nossa Sombra — não no sentido simplista de algo ruim, mas daquilo que existe em nós e que ainda não reconhecemos completamente.

E talvez seja exatamente por isso que algumas imagens simbólicas provocam uma identificação tão intensa. Não escolhemos racionalmente tudo aquilo que nos toca. Existem símbolos diante dos quais alguma coisa dentro de nós simplesmente responde.


O dragão de essência da Narinha

Foi acompanhando o projeto pessoal da Narinha que comecei a observar tudo isso por outro ângulo.

Para ela, existe uma dimensão espiritual e mística nessa relação. Seu dragão de essência possui identidade, características próprias e uma história que não é tratada simplesmente como ficção.

E eu respeito essa experiência justamente porque não preciso transformá-la na minha própria crença para reconhecer o significado que ela possui para quem a vivencia.

Minha tendência natural é também observá-la através do simbolismo.

Talvez seja essa uma das coisas mais bonitas do encontro entre pessoas: não precisamos interpretar o mundo da mesma maneira para construirmos alguma coisa juntas.

Narinha pode olhar para o dragão através da espiritualidade.

Eu posso observá-lo através da psique, dos arquétipos, do inconsciente e da mitologia.

E, em determinado ponto, nossas duas perspectivas encontram a mesma matéria.

Literalmente.

O biscuit.


E, de repente, eu estava fazendo um olho de dragão

Primeiro projeto com Biscuit
Primeiro projeto com Biscuit

Essa talvez seja a parte mais inesperada de toda essa história.

Eu nunca havia trabalhado com biscuit.

Não possuía experiência com modelagem, nunca havia construído olhos de criaturas fantásticas e certamente não imaginava que, em algum momento da minha vida, estaria pesquisando formas, proporções, íris, pupilas, cores e profundidade para descobrir como dar expressão ao olhar de um dragão.

Mas aceitei participar.

Primeiro pela Narinha.

Depois pelo desafio.

E, em algum momento do processo, percebi que eu também estava me envolvendo profundamente com aquilo.

Porque criar manualmente possui uma característica muito particular: a ideia deixa de existir somente no pensamento e começa a ocupar espaço no mundo material.

Você toca.

Erra.

Refaz.

Aperta demais.

Corrige.

Olha novamente.

Percebe uma assimetria.

Tenta outra vez.

Descobre que determinado material não responde como imaginava.

E aprende.

Para alguém que nunca havia mexido com esse tipo de arte, construir um olho de dragão em biscuit tornou-se também uma pequena experiência de descoberta pessoal.

Existe algo profundamente simbólico nisso.

Entre todas as partes possíveis de um dragão, começamos justamente pelo olho.

E o olho, simbolicamente, está relacionado à percepção, à consciência, àquilo que vê e também à sensação de sermos vistos.

Na perspectiva psicanalítica, poderíamos brincar com uma pergunta:

quando construímos o olhar de uma criatura simbólica, somos nós que passamos a enxergá-la ou é através dela que começamos a enxergar alguma coisa em nós mesmos?

Talvez as duas coisas.


Quando o símbolo ganha matéria

Jung trabalhou profundamente com a importância da expressão simbólica. Aquilo que não conseguimos traduzir integralmente em conceitos pode encontrar outras formas de manifestação: sonhos, desenhos, mandalas, fantasias, narrativas, esculturas, mitos.

A criação artística permite estabelecer uma espécie de diálogo entre consciência e conteúdos que nem sempre conseguem ser expressos diretamente pela linguagem racional.

Por isso, olhando pela minha perspectiva, construir fisicamente uma representação relacionada ao dragão de essência possui um significado que ultrapassa o objeto pronto.

Não estamos simplesmente produzindo “um olho bonito”.

Existe intenção.

Existe escolha.

Existe concentração.

Existe significado.

Existe uma pessoa que reconhece naquele objeto a representação de algo profundamente particular.

Para Narinha, essa dimensão pode ser espiritual.

Para mim, ela também pode ser compreendida simbolicamente.

Uma interpretação não precisa necessariamente destruir a outra.

Aliás, talvez o erro esteja justamente na nossa necessidade de transformar experiências humanas complexas em uma disputa permanente entre “é psicológico” ou “é espiritual”.

Nem sempre precisamos resolver esse impasse.

Às vezes podemos simplesmente observar aquilo que a experiência produz na pessoa.


Não é simplesmente um comércio de dragões

Esse é um ponto que considero fundamental explicar sobre o projeto.

Embora exista uma aquisição mediante valor monetário — afinal, existem materiais, tempo, trabalho, desenvolvimento e todo um processo envolvido — a proposta não é transformar dragões em uma mercadoria comum.

Não se trata simplesmente de escolher um modelo, pagar e levar um dragão para casa como quem compra um objeto decorativo.

Existe toda uma ritualística por trás da construção.

Existe uma intenção relacionada àquele dragão, à pessoa e àquilo que ele representa para ela.

O valor financeiro faz parte da viabilização material do processo, mas não define seu significado.

E existe uma diferença enorme entre atribuir valor a um trabalho e esvaziar um símbolo transformando-o apenas em produto.

Talvez seja justamente aí que esteja uma das características mais interessantes do projeto da Narinha.

O objeto final pode ser material.

Pode ocupar uma estante.

Pode ser tocado.

Pode ser fotografado.

Mas aquilo que ele representa não está necessariamente contido na matéria utilizada para construí-lo.

O biscuit é apenas biscuit.

A tinta é apenas tinta.

A estrutura é apenas estrutura.

O símbolo nasce da relação que a pessoa estabelece com aquilo.

É a experiência subjetiva que transforma matéria em significado.


Entre a Psicanálise e o místico

Eu continuo olhando para os dragões através da minha própria lente.

Não abandono minha percepção psicanalítica para participar desse universo. Pelo contrário: talvez tenha sido justamente ela que tenha permitido que eu me interessasse ainda mais pelo projeto.

Porque onde existe mito, existe muito material psíquico.

Onde existe símbolo, existe possibilidade de interpretação.

Onde existe identificação profunda com uma figura arquetípica, existe uma história esperando para ser compreendida.

Mas também aprendi, ao longo desse processo, que nem tudo precisa ser imediatamente interpretado.

Às vezes é possível simplesmente criar.

Participar.

Observar.

Sentir curiosidade.

E respeitar o significado que determinada experiência possui para outra pessoa.

Para Narinha, seu dragão de essência pertence a uma esfera que ultrapassa o psicológico.

Para mim, os dragões podem ser compreendidos também como manifestações simbólicas extraordinariamente ricas do universo psíquico.

E entre essas duas maneiras de enxergar nasceu algo concreto.

Um olho.

Feito de biscuit.

Construído por mãos que nunca haviam trabalhado com aquele material.

Talvez seja justamente isso que mais tenha me encantado.

Entrei no projeto para ajudar uma amiga a materializar uma parte do dragão de sua essência e acabei descobrindo uma forma de expressão artística que eu mesma desconhecia ser capaz de realizar.

Ainda estou aprendendo.

Ainda existem erros, tentativas, experiências com materiais e aquela curiosidade quase infantil de olhar para algo pronto e pensar:

“Fui eu que fiz isso?”

E existe muito de psicanalítico nisso também.

Porque criar é, de alguma maneira, permitir que algo que antes existia apenas como possibilidade encontre uma forma.


No final, talvez não seja sobre acreditar em dragões

Talvez seja sobre aquilo que fazemos com os símbolos que nos encontram.

Para algumas pessoas, o dragão será uma criatura mitológica.

Para outras, um arquétipo.

Para outras, uma entidade espiritual.

Para outras, uma essência.

E para algumas será simplesmente uma criatura fantástica que desperta fascínio.

Não acredito que seja necessário obrigar todas essas experiências a caberem dentro da mesma explicação.

O que me interessa é perceber o movimento psíquico que acontece quando um símbolo ganha importância suficiente para transformar alguma coisa em nós.

No meu caso, ele me fez experimentar uma arte que jamais havia praticado.

Fez com que eu colocasse literalmente as mãos na massa.

Fez com que eu participasse de um projeto pessoal de alguém que amo e respeito.

E fez com que, entre conversas sobre dragões, arquétipos, espiritualidade, tintas, pupilas, escamas e biscuit, eu percebesse novamente algo que a Psicanálise nos ensina de maneiras diferentes:

o ser humano não vive apenas de fatos. Vive também dos significados que atribui a eles.

Se o dragão habita o plano espiritual, como acredita Narinha, ou se atravessa os territórios profundos do inconsciente e dos arquétipos, como posso analisá-lo pela perspectiva junguiana, talvez não seja necessário estabelecer uma resposta definitiva.

Por enquanto, existe algo muito mais concreto diante de mim:

um projeto sendo construído, um símbolo ganhando matéria e um olho de dragão começando a olhar de volta para nós.

E fico genuinamente feliz por poder colocar um pouco das minhas mãos, da minha curiosidade e da minha própria maneira de enxergar o mundo na construção desse projeto tão pessoal da Narinha.

Porque alguns símbolos são encontrados nos livros.

Outros aparecem nos sonhos.

E alguns, aparentemente, chegam até nós na forma de um pedaço de biscuit esperando para ganhar vida.


O olho e a imagem referência.
O olho e a imagem referência.


Andréia Capraro


 
 
 

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